(02/12/2002) - "Ainda há muito o que fazer"
"Ainda há muito o que fazer"
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| Acelino Mentor e Edson Amaro, preparando-se para assumir o controle das duas entidades |
A gestão das duas principais entidades empresariais do setor de Tecnologia da Informação vai mudar essa semana. Há um consenso de que houve avanços, mas também é fato que ainda há um longo caminho para a existência de uma base sólida de TI no estado.
*Silvio Mauro da Redação
Incremento nas exportações e redução definitiva da alíquota de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de 12% para 7%, são algumas metas definidas como prioritárias pelos representantes do Sindicato das Empresas de Informática, Telecomunicações e Automação do Ceará (Seitac) e da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet (Assespro).
As duas entidades trabalham em conjunto no Ceará - na união batizada de sistema Assespro/Seitac, o presidente de uma entidade é o vice da outra.
No próximo dia 5, o atual presidente da Assespro, Acelino Mentor, passará o cargo para Alexandre Mota. Já Edson Amaro, assumirá o Seitac no lugar de Paulo Cavalcanti. O mandato de cada um é de dois anos. A nova gestão vai encontrar um cenário meio turbulento por óbvias razões econômicas, mas o pensamento corrente é de que ainda há muito o que fazer em termos de informatização no estado, o que garantirá que o setor de TI local continue em crescimento, pelo menos em 2003.
O POVO - Qual a avaliação do ano? Foi além ou aquém das expectativas?
Acelino Mentor - Foi além. Nós tivemos durante o ano um despertar do empresariado. Ele veio trabalhar em conjunto conosco. Nós resolvemos fazer um planejamento estratégico para o setor e o resultado mais concreto disso é que agora acontecem reuniões semanais com grupos de empresários. Isso resultou em uma sinergia, um trabalho muito unido. Para se ter uma idéia, em uma das chamadas da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep, programa vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia), esse ano, seis empresas daqui tiveram projetos aprovados na primeira fase. Infelizmente, do total de 25 milhões dessa chamada, vindos do Fundo Verde-Amarelo, não chegou nada aqui no Ceará. Nós ficamos até decepcionados, porque empresas do Sul receberam dinheiro para mais de um projeto por companhia e nós não conseguimos nada, mas o importante é que os projetos provaram sua viabilidade técnica. Em outra chamada desse ano, de 22 milhões, a Soft Builder conseguiu 400 mil reais e a Iativa teve liberados 250 mil. Mas as empresas do Sul ainda conseguem as verbas com mais facilidades que nós, infelizmente.
OP - O que esse ano teve de bom? Quais os avanços conseguidos?
AM - Considero o maior ganho a união entre as empresas em torno de projetos.
Edson Amaro - Além disso, também houve uma mudança na destinação dos recursos dos fundos setoriais de tecnologia. A bancada nordestina (no Congresso Nacional) conseguiu fazer com que 30% sejam aplicados na região Norte/Nordeste. Antes, quando não existia essa obrigatoriedade, 96% do dinheiro ia para o Sul/Sudeste.
AM - Nós também tivemos, no mês passado, a aprovação de 20 empresas em um projeto de capacitação para exportar, em um investimento total de mais de dois milhões. Acho que também merece destaque a atuação do Insoft, no apoio a todos os projetos desenvolvidos pelas empresas. Houve também uma aproximação entre os órgãos do programa Ceará Digital, as universidades e as empresas. E por fim, cito a consolidação da união entre o Seitac e o Assespro, com todas as equipes de cada entidade trabalhando em comum. Com isso, nós fortificamos o segmento de TI local e canalizamos os esforços em torno de um objetivo comum. Não tem sentido, eu uma terra pobre como o Ceará, dividir esforços.
OP - O que ainda ficou pendente?
AM - Nós pretendíamos aumentar ainda mais a base do sistema, com adesões de associados. Nós crescemos 20% esse ano, mas acho que esse índice foi insuficiente. Poderia ser maior.
OP - Algumas notícias que colhi no próprio site do sistema Assespro/ Seitac apontam dados que indicam crise no setor de TI. Como o senhor avalia isso? O que pode ser feito para amenizar os efeitos dessa crise?
AM - A crise não afeta apenas o nosso setor, mas toda a economia do Brasil. Falando como empresário, eu diria que a situação é, realmente, difícil. O que nós estamos fazendo é procurar alternativas, buscando a profissionalização do empresariado para explorar áreas onde ainda não atuamos.
EA - Esse esforço de usar os recursos da Apex, por exemplo, é a oportunidade de explorar mais o mercado internacional. Esse foi o primeiro ano em que o setor de TI não apresentou crescimento no Brasil. Então, temos que buscar saída na exportação.
OP - Quais as metas para 2003, levando em conta esses fatores?
EA - Pretendemos aumentar a oferta de serviços para os associados, aumentar a atuação política nos três níveis de governo (municipal, estadual e federal), aumentar a integração das empresas do sistema através de eventos sociais, esportivos e culturais, fornecer apoio técnico para geração de negócios e aumentar a visibilidade do sistema na sociedade, inclusive com p gina no jornal e programa de TV.
OP - Como está a participação do sistema Assespro/Seitac no interior do Ceará?
EA - Há, na próxima gestão, a intenção de interiorizar as ações. Não vamos poder atuar em todas as regiões, mas pretendemos estar mais presentes em pólos como o Cariri e as regiões próximas de Sobral e Iguatu.
AM - Penso que não seria viável criar uma área de tecnologia em alguma região inóspita. A única experiência com sucesso nesse sentido foi o Vale do Silício, nos Estados Unidos, mas eles já tinham universidades instaladas por perto.
EA - A tecnologia tem que estar perto das universidades e existe uma grande concentração delas na capital ou em poucas regiões no interior. Só recentemente, por exemplo, foi criada uma faculdade de Medicina no Cariri.
OP - Como é a relação do sistema Assespro/Seitac com o governo do estado?
AM - Acho que é a melhor possível. A Secretaria da Ciência e Tecnologia (Secitece) sempre foi nossa grande parceira. E agora, nesse último ano, a Secretaria do Planejamento e Coordenação (Seplan) também foi parceira através do Ceará Digital. Ela também está fazendo um censo em conjunto com o Sistema Assespro/Seitac, porque ainda não temos dados precisos sobre o setor no estado.
OP - Falando em Ceará Digital, em que áreas vocês estão ligados a ele?
AM - Estamos ligados diretamente a algumas ações. O Centro Digital (espaço dedicado à TI, a ser criado pelo Governo do Estado e que funcionar nos andares acima do Cine São Luiz, no Centro), por exemplo, vai ser ocupado pelas empresas.
OP - Falou-se muito em fundos oficiais de investimento em TI. Os empresários também estão aplicando recursos próprios em pesquisa?
AM - Sim. Nos projetos com recursos do Governo Federal, aliás, tem que haver a contrapartida por parte dos empresários.
EA - No projeto da Apex, por exemplo, 50% do dinheiro tem que vir das próprias empresas.
OP - Como está o mercado doméstico do Ceará (Internet, residências com computadores, vendas de suprimentos)?
EA - A parte de venda de equipamentos passou por uma reformulação, porque os computadores passaram a ser vendidos como eletrodomésticos, enquanto antes só eram comercializadas em lojas especializadas.
AM - As empresas tiveram que se adequar, e quem não conseguiu foi obrigado a fechar as portas.
EA - O que se está fazendo, hoje, é a tentativa de agregar serviços.
OP - Na sua opinião, o governo conseguiu avanços na informatização do estado?
EA - Sim. O governo tem um portal de serviços, e hoje as informações sobre a administração pública são mais acessíveis.
OP - A assessora Teresa Mota, do Ministério da Ciência e Tecnologia declarou em uma visita a Fortaleza, esse ano, que o lobby dos empresários cearenses para conseguir recursos no ministério era pouco atuante. O que tem sido feito nesse sentido?
AM - Realmente, nós precisamos de uma atuação mais forte, e nós temos buscado isso. Pretendemos, através da Assespro nacional, estar mais próximos do Ministério da Ciência e Tecnologia. Nós conseguimos, inclusive, uma cadeira para o Ceará na nova chapa nacional da Assespro, que irá assumir a entidade no início de janeiro de 2003.
EA - Também nos empenhamos para eleger representantes no Congresso Nacional comprometidos com o setor.
OP - Com relação ao tema exclusão digital, o que o sistema Assespro/ Seitac tem feito no estado?
AM - Nós apoiamos o Programa Estadual de Qualificação (PEQ, destinado a reduzir o analfabetismo digital em comunidades de baixa renda através de cursos básicos de informática) que é executado pela Secretaria do Trabalho e Ação Social (Setas) com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Fornecemos a cooperação técnica. Outras ações de-pendem da estruturação do setor. Ainda estamos arrumando a casa.
Jornal O Povo
02.12.2002